1.23.2009

soluçar do tempo presente
mera aproximação de um atalho
minha volupia, aceito.
a culpa, nego
me apego as dolorosas pressões do tempo
então entre mentiras absolutamente verdadeiras descubro um pouco de vida em cada instante e me inebrio frente ao olhos e ao silêncio do corpo que não pode dizer...
mãos entrelaçadas na manhã que aos poucos começa a delinear um novo dia.

10.12.2008

O sol que ofusca meus olhos

A boca sangra, sinto uma dor interminável que começa no ventre e se estende até a garganta, gosto do sangue. Retorço meu corpo, caretas de dor. Suspiro cheio de mágoas. A escadaria faz um traçado rumo ao horizonte do céu, lá em cima uma luz dourada, gosma branca, um vômito de tudo. Alguém me pegou pelo braço. São dois, me carregam. Vejo os tijolos rebocados e uma luz fraca que vem do corredor. Sobre a pedra fria da calçada, sinto o semem na carne. Quente, respiração palpitante. Um deles se aproxima, ouço o tênis amassar macio a calçada, não consigo me movimentar, meu peito parece que vai explodir, tenho dor de barriga, uma ardência, pó que se dissolve em passadas longínquas, sinto quando sua mão se aproxima, pele macia. Ele coloca algo no meu pescoço, julgo ser um plástico pelo toque em minha pele, pedaço de petróleo transformado no meu corpo, tento gritar, minha voz não sai, quero fugir, não consigo. Agora é o calor da língua nos meus braços. Ouço vozes de minha infância, alegres, mas de uma alegria compassada, como se todos os sons me chamassem para algum lugar que não ali, naquela pedra fria, um ar cinzento, cheiro de gasolina, cheiro da cidade, naquele lugar que mais parece uma latrina. Mas as vozes...sempre elas, porque? Logo agora, me lembrar do doce gosto da fruta partida numa manhã de primavera. Estou tão cansado que fico encontrando culpa em tudo que fiz, cada passo que dei até desembocar nessa latrina. Eu, esgoto. Um dia ouvi o som da lira, mas está tão vago agora. Só um amontoado de máquinas corroendo o azul do céu. Deixando tudo inexplicavelmente belo. Beleza deteriorada.
Quando acordei tive que levantar sozinho, o sol começa mais um dia. Apanhei um trapo e limpei minha cara. Sensação de poeira dentro da boca. Voltei até a escadaria, ela parece absurdamente grande. Me apoio na parede, subo um degrau por vez, minhas pernas tateiam o ar, os pés mal conseguem se fixar no cimento já duro e sujo. Lá em cima o sol, quente, obtuso, faz meu olhos se fecharem, sinto uma pontada na cabeça, tenho sede. Vou pedir ao empregado da banca de frutas um pouco de água. Cheiro de frutas. Meu estômago sente fome. Há dias não como, sem fome, sem vontade de comer. Apurei os dedos para conseguir algumas moedas no bolso. Nada, tentei os bolsos de trás. Tinha só um papel amarrotado com um número de telefone com a letra P do lado, com alguns desenhos. De quem é? Lembrei que tinha escondido algum dinheiro no tênis. Vai servir, vou para casa de ônibus e ainda consigo comer, levo uma manga ou uma maçã? Água, preciso de água. Minha boca está seca, pego uma maçã e vou embora. Preciso de água. Não consigo enxergar as coisas muito bem, estou tonto, a ânsia volta. Vou vomitar. Um gosto amargo atravessa minha garganta, ela arde, vômito que fede, sensação de poeira. Jogo fora a metade daquele fruto. Vou deitar embaixo de alguma árvore e dormir um pouco antes de pegar o ônibus, vai ser pior se eu vomitar lá dentro, as pessoas me olhando com nojo. Deitei, não tenho sono. O corpo dói, parece que a minha cabeça está dentro de uma prensa. Ouço barulho, acho que são os carros. Um passarinho defecou sobre minhas roupas, eu rio.
Quando acordei a merda já estava seca por cima da camisa preta, ela um dia já teve cheiro de amaciante. Lembro de coisas, tantas coisas, mas há quanto tempo isso aconteceu? Que dia é hoje? O sol já está indo embora. Mais uma vez a boca amarga, a garganta seca. Preciso de água, a boca limpa. Passo a língua nos dentes e posso sentir a sujeira entre eles. Bochecho um pouco de água, esfrego os dedos nos dentes. Acho que já está melhor. Preciso ir para casa. Mas agora o ônibus vai estar lotado, aquela gente me olhando, me cheirando. Prefiro ir a pé, mas é longe e tenho dor no corpo. Acho que vou vomitar, não foi só dor. Vou tomar uma cerveja e comer um pastel, depois decido o que fazer. Tenho pouco dinheiro, vou ter que voltar a pé se quiser comer. Não, acho que dá para comer e pagar a passagem, pego uma garrafa pequena de cerveja. Isso, depois vou para casa. Será que preciso trabalhar amanhã? Que dia? Quantos dias?Uma coisa de cada vez...
Cheguei em um pequeno boteco, corredor abafado e cheirando a mofo. O pastel, não, vou tomar uma cerveja, sem fome de novo, saco. Minhas pernas estão coçando, levanto a calça e vejo um vergão com um pouco de sangue seco mais abaixo, parece que escorreu da minha coxa, merda! Vou até o banheiro e tiro as calças, é da coxa mesmo, tem um pequeno furo, mas parece fundo, o sangue já secou, então tudo bem, não vou morrer perdendo sangue, o que mais me preocupa são os vômitos. Lavo o rosto, as mãos. Acho que vou comer algo antes da cerveja. Peço um pastel e a única coisa que a puta da garçonete consegue falar é que ali tem que pagar senão não leva nada. Ela está tão próxima que consigo pegar em seu pescoço e falo para que ela possa sentir meu hálito de raiva. Ta aqui sua putinha, putinha. E vou apertando seu pescoço cada vez mais em minha direção e socando as notas velhas dentro da sua boca.
Daí em diante alguns socos no ar e muitos na minha cara. Merda to fraco demais, minha faca não está no meu bolso. Aqueles desgraçados devem ter levado embora, punheteiros filhos de uma égua! Apanho até cair fora daquele corredor. Agora sem dinheiro, cachaça ou comida. Mas sempre acompanhado do enjôo. O sangue escorre na boca, mais alguns cortes, meu olho deve estar inchado. Levanto, atravesso a rua, caminho duas ou três quadras. Preciso dormir.
Quando acordei, lembrava do sol que ardia nos meus olhos, barulho de gente chegando perto, alguém chorando e um carro branco. O teto também é branco agora, estou preso em uma cama, meus tornozelos estão ardendo. Grito: quem foi o estúpido que amarrou meus braços e minhas pernas, podiam tentar não extirpar minhas partes desta forma! Espera, algo diferente, o cheiro do lugar. Não estou enjoado. Levanto a cabeça o quanto consigo e não é muito, uma sala branca. Não gosto de branco, preferia algo mais colorido ou quem sabe mais fúnebre.
Sala branca com uma porta e eu amarrado. Eu ia comprar um pastel, disso eu lembro e o que mais? Grito de novo: se eu vomitar vou morrer afogado na minha própria merda seus bichos bizarros! Alguém faça a gentileza de retirar as cordas, para que eu possa vomitar decentemente! Meus tornozelos estão doendo! Nessas horas não é do cara se descontrolar? Começo a chacoalhar o corpo, muito e muito e grito: Meus tornozelos, meus tornozelos!!!
A porta se abriu, uma injeção venho caminhando lentamente. Merda! Não dá pra lutar com a seringa. Ela é pequena, deve ter me amarrado enquanto dormia!Sono profundo, tudo preto.
Agora, que dia é hoje? Tenho que ir trabalhar? Grito de novo: meus tornozelos!meus malditos tornozelos! A porta abre e a seringa aparece. De novo sono profundo e tudo preto.
E assim foi por quantos dias, horas segundos, milionésimos de segundo, não sei, que dia é hoje mesmo? Tenho que ir trabalhar? Acho que é domingo. Desta vez quando gritei meus torno... a seringa já estava do meu lado. Desta vez o sono não foi todo preto. Conseguia ouvir algumas vozes, posso até dizer que por alguns momentos dormi como uma criança depois de um dia no parque de diversões, cansado e satisfeito. Hoje não me amarraram, também não tive vontade de gritar, meus tornozelos. Falei baixinho, ela não veio. A porta não abriu. Sento na cama. O quarto branco, vou gritar: quero colorido! Melhor não, a seringa pode voltar. Ela me desamarrou, acho que foi ela, também não sei, estava dormindo. Preciso urinar, mal pensei e já sinto escorrer pelas minhas pernas um liquido quente.
Tem outra porta além daquela da seringa, está entreaberta. Estou fraco, tenho que rastejar até lá, aos poucos começo a sentir o cheiro de desinfetante, deve ser um banheiro. Banho. Abro a torneira sento embaixo da água, nada mais, só a água escorrendo pelo meu corpo cansado. Sede, sacio a sede, ótimo estou progredindo, ou pelo menos acho que estou. Não tenho enjôo, penso no pastel, nada de enjôo. Penso na cerveja gelada, um certo prazer de tempos remanescentes. Um pouco de comida me faria bem. Um banho quente, há quanto tempo eu não tomava um? Não importa. Agora é só esperar, preciso falar com a seringa, tenho que trabalhar, ela precisa me deixar sair.
A mão afaga meus cabelos, seringa não tem mãos... talvez seja alguém, mas não consigo ver. Estou quente, seco, na cama mais uma vez .Ouço a voz que afaga meu ouvido, durmo.
Não estou amarrado, meu tornozelos estão sarando. Quero voltar para casa, alguém pode me mostrar o caminho de casa? Eu já não sei mais ir sozinho, acho que nem tenho mais casa, é talvez não, nem trabalho, merda.
O carinho é tão bom que chego a pensar em um restaurante com a mesa farta, nada de enjôo. Talvez eu não beba quando sair. Talvez faça uma refeição antes, quem sabe encontrar a casa, o trabalho, a vida fora daqui. Onde eu estou? Alguém me responde devagarzinho, mas eu não compreendo. Vou dormir de novo. Amanhã, sim isso eu compreendi, vão me deixar pegar sol no jardim, mas o sol dói os meus olhos. Preciso de um óculos escuro. A voz disse que vai conseguir um, melhor assim, fico mais tranqüilo. Me sinto surpreendentemente feliz, passeio, comida e óculos escuro.
Agora durmo, em meus sonhos, há apenas cheiros, de uma fruta, o vão do corpo que sente o cheiro tem aspecto rosa. Verde constelação de sonhos, amanhã.
Que dia é hoje? Acordo no jardim, a luz é amarelada e fraca, posso ver o contorno de algumas árvores, o jasmim está ao lado da casa, o branco de cada flor parece sair dançando para carregar o perfume. Inspiro forte, perfume branco e doce.

9.26.2008

Influenciáveis.



Vou andando na rua colorida de mármore com resquícios do amarelo entardecer.
Vou vagando sozinho
Sorriso no rosto
Encontro escondido.
Meu rosto se perde em seu abraço
Corredor de memórias

Geometria das Ruas

Contagiante sabor de café pelo ar, seu cheiro na memória, veludo no sol, escuridão libertária de fótons entrelaçados na cor do teu corpo. Beleza de contornos descobertos em pele desnuda na tarde do passeio público. Casas arredondadas no final da rua, linha do quarteirão que abraça as casas, passado desconhecido. Guardei o cigarro no bolso esquerdo, olhei em volta e todos tinham o rosto da tua beleza, olho marrom, pele de café, sentido desperto pela lua nascente que divide o espaço azul.
A gota do remédio. Uma casa de gota, mundo infinito de imagens, barro transformado em líquido.
Sem errar na dose, avistou terras estrangeiras no seu porto, conciliou o eterno traçado-tijolo com a pena calma presa no peito do pássaro-aquarela.
Quantas chances ela tem de virar seu rosto e sorrir?
Hálito de manhã incessante.
Volto à geometria das ruas analíticas e funcionais, ambivalência das formas.
Perdida no afluente de águas mornas ela suga minha sede e se despede. Mar sem porto.

Pensamento difuso em ondas sonoras.

Sensação física soletrada embaixo da árvore.
Soletrada do alto do edifício, tem luz amarela.
O mármore recobriu a árvore de vermelho,
Quando caminhava nas avenidas olhava os indecisos atravessando as ruas.
Uma maré cheia de hesitação, cor.
Som de carro velho caindo do guindaste.
Você já subiu no alto? Edifício cortado.
Quer enriquecer teu cofre de porco com um pouco de sangue do bucho daqueles que você não conhece.
Corre andorinha se não te matam, vê ali no alto tem tua morte, cravada na tua carne.
Tem alma o mistério da morte?

Chega de infortúnios

Chega de tristeza e mesa sem comida
Hoje é dia de trazer a paixão pela vida
No colorido das tuas ações
Descobri o intenso prazer de respirar
Aspirar um pouco de teu perfume
Intenso desejo de transfigurar na tua pele o desenho da minha vontade
A minha pele já possui seus desenhos
Sou feliz por estar contigo
Sei que não posso falar
É preciso um momento
Você não vai compreender se eu te falar
uma pequena parte da felicidade do mundo.
Não é mais cinza
É verde e lilás e azul
É uma marcha
feita por pernas operárias de um escudo do tempo
Olha o céu
Enxerga, não olha o chão agora
Vê! ainda está rosa,
O sol ainda não deitou
A lua está ao seu lado
faz esquecer que amanhã é outro dia.