1.23.2009

soluçar do tempo presente
mera aproximação de um atalho
...

9.26.2008

Influenciáveis.



Vou andando na rua colorida de mármore com resquícios do amarelo entardecer.
Vou vagando sozinho
Sorriso no rosto
Encontro escondido.
Meu rosto se perde em seu abraço
Corredor de memórias

Geometria das Ruas

Contagiante sabor de café pelo ar, seu cheiro na memória, veludo no sol, escuridão libertária de fótons entrelaçados na cor do teu corpo. Beleza de contornos descobertos em pele desnuda na tarde do passeio público. Casas arredondadas no final da rua, linha do quarteirão que abraça as casas, passado desconhecido. Guardei o cigarro no bolso esquerdo, olhei em volta e todos tinham o rosto da tua beleza, olho marrom, pele de café, sentido desperto pela lua nascente que divide o espaço azul.
A gota do remédio. Uma casa de gota, mundo infinito de imagens, barro transformado em líquido.
Sem errar na dose, avistou terras estrangeiras no seu porto, conciliou o eterno traçado-tijolo com a pena calma presa no peito do pássaro-aquarela.
Quantas chances ela tem de virar seu rosto e sorrir?
Hálito de manhã incessante.
Volto à geometria das ruas analíticas e funcionais, ambivalência das formas.
Perdida no afluente de águas mornas ela suga minha sede e se despede. Mar sem porto.

Pensamento difuso em ondas sonoras.

Sensação física soletrada embaixo da árvore.
Soletrada do alto do edifício, tem luz amarela.
O mármore recobriu a árvore de vermelho,
Quando caminhava nas avenidas olhava os indecisos atravessando as ruas.
Uma maré cheia de hesitação, cor.
Som de carro velho caindo do guindaste.
Você já subiu no alto? Edifício cortado.
Quer enriquecer teu cofre de porco com um pouco de sangue do bucho daqueles que você não conhece.
Corre andorinha se não te matam, vê ali no alto tem tua morte, cravada na tua carne.
Tem alma o mistério da morte?

Chega de infortúnios

Chega de tristeza e mesa sem comida
Hoje é dia de trazer a paixão pela vida
No colorido das tuas ações
Descobri o intenso prazer de respirar
Aspirar um pouco de teu perfume
Intenso desejo de transfigurar na tua pele o desenho da minha vontade
A minha pele já possui seus desenhos
Sou feliz por estar contigo
Sei que não posso falar
É preciso um momento
Você não vai compreender se eu te falar
uma pequena parte da felicidade do mundo.
Não é mais cinza
É verde e lilás e azul
É uma marcha
feita por pernas operárias de um escudo do tempo
Olha o céu
Enxerga, não olha o chão agora
Vê! ainda está rosa,
O sol ainda não deitou
A lua está ao seu lado
faz esquecer que amanhã é outro dia.

Somos feitos de água.

Coloquei a água para ferver, as panelas estão engorduradas demais. Enquanto a chaleira pega o calor do fogo, vou até a rua usar um pouco de nicotina. Tudo muito tranqüilo. Posso ver do alto das escadas as imensas árvores. Caule lenhoso coberto por orquídeas, o cheiro adocicado é carregado até as minhas narinas. Perto da casa, debaixo de algumas folhas de zinco uma mesa grande e bancos de madeira. O chão em outra época não tinha o cimento de hoje, era terra.
A água está fervendo, volto para a pia. A louça de vidro tem uma aparência hostil. A gordura se impregnou na superfície, tive que esfregar muito, mesmo assim não consegui reintegrar a beleza originaria do vidro limpo. Enxaguar os pratos, talheres, passar café. Vou servir o café. Não sei por que insisto em passar o café para nós duas se apenas eu tomo.
Existem 27 degraus que separam a cozinha do solo prodigioso de nossa propriedade, acendo outro cigarro preparo a minha xícara de café. Sento no 24º degrau observando as nuvens que passam.
Minha mãe, cabelos castanhos, magra, olhar sorridente. Essa é a melhor época para ficar perto dela, longe dos livros de contabilidade, das reuniões sem fim, das inúmeras coisas e obrigações para fazer antes do dia acabar. Ela assim, sem se importar com o tempo. Suspiro.
Ninguém na casa, nem no quintal. Estranho, talvez ela esteja na piscina. Também não. Um medo sutil começa a percorrer minhas vísceras.
O céu ficou cinza, as árvores estão caindo, tento correr, fugir, mas elas querem me prender ali. Consigo correr em direção ao jardim? Os cães com seus dentes!O rosnar deles me petrifica. As raízes fazem explodir a terra para serem libertadas.
Correndo em círculos não tenho como fugir. Repentinamente minha voz se desprende do meu corpo e navega pelas ondas. Grama tomada pela terra. Calmaria. Não quero fugir, estou aqui. O vento sopra como uma brisa suave de fim de tarde. Olho para casa, minha mãe está na cozinha, vou até lá. O céu está azul, as árvores continuam no mesmo lugar.
Vejo um homem triste de cabelos alisados contra a testa suada, curvado sobre uma caixa. Sombra sobre as árvores que se amontoam quebradas. Ele quer falar comigo, eu sei. Os cães acompanham cada passo, o céu e seu caleidoscópio a girar sobre a minha cabeça. Os meus olhos observam o sol gigante iluminando a casa.
Continuo me aproximando, tento controlar meu nervosismo, o que mais me incomoda é o rosnar silencioso da agressão. Estou tão perto dele... cheiro de carne.
- Acho que não nos conhecemos.
Nenhuma resposta.
- Você conhece alguém da família?
- Conheço você.
Eu não o conheço.
- Está com medo?
- Não, só me desagrada uma pessoa que não conheço dentro da minha propriedade.
- Entendo, vou apenas dar comida aos meus bichos depois irei embora.
Olho para a caixa que ele cuida com muito esmero. Dentro dela uma porção de... Não saberia dar nome ao que eu vi.
- O que eles comem?
- Plantas e vermes.
- Tão pequenos e parecem tão frágeis...
- Pode sentar aqui ao meu lado.
Parados contemplando o infinito. Tempo. Os cães deitaram sobre a terra úmida e adormeceram. Em um lapso de ato e pensamento, pego a caixa, na minha direção os ruídos da raiva. Ameaço, eles recuam. Ele olhou para os cães. O seu sorriso, raiva que devora o ar.
-O senhor não tem mais nada pra fazer?
-Cuidado com a caixa.
-Eu vou jogar isso aqui na merda se você continuar aqui.
-Você não fará isso.
- Faço sim!
-A caixa é sua.
Para meu assombro não há nada ali dentro. Apenas papelão. Sinto gotículas de água escorrendo nos braços. O papel transformado em água.
Falta de ar. Correr. Subo os degraus, o velho sorriso de minha mãe, nenhum rosnar. Vou fazer café para nós duas. Não, melhor fazer só pra mim. A água ferve, lá fora acendo meu cigarro, sento no 27º degrau. Para onde ele e seus cachorros teriam ido?